Fragmentos | 2006

Convento dos Cardais | Lisboa
 

(…) Foi tudo isto que me veio à memória ao apreciar as “caixas com janelas” da Teresa Pavão. Acicataram-me esse lado “voyeur” de que todos temos um pouco, essa vontade irresistível de espreitar e de nos deixarmos embalar nas asas férteis da imaginação. Tal como no arco da minha infância, há cacos, pedaços de outros usos, linhas que tecem um emaranhado de referências que nos projectam no mais íntimo de nós, entretecidos por aquela especial sensibilidade feminina que manuseia com delicadeza os fios prateados dos sonhos. Estas janelas de espreitar não nos indicam caminhos nem contêm mensagens. Limitam-se simplesmente a confrontar-nos com o imaginário intemporal que vagueia naquele limbo inconsciente do conhecimento que só certos dons especiais sabem fazer despertar. Tudo condensado naquela geometria rigorosa de uma janela rasgada numa parede lisa, para lá da qual cada um entreverá exactamente aquilo que quiser. (…)

 

Teresa Segurado Pavão

 

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